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Emigrantes regressam para férias mais prudentes

Condicionamentos do desconfinamento, limitações sociais e ausência das tradicionais festas de verão obrigam a férias mais recatadas. O +Aguiar da Beira ouviu a diáspora aguiarense neste regresso ao concelho em período de pandemia da Covid-19

Maria Santos e a família, emigrados em Friburgo, na Suíça, regressaram à terra natal – Carapito –, este mês, para gozar o habitual período de férias de verão. “Com esta situação toda da pandemia estávamos mesmo a precisar de recarregar baterias na tranquilidade da nossa terra natal, para aliviar o stress e esquecermos todos os problemas”, refere a senhora de 56 anos, acrescentando que “estas férias vão ser passadas mais por casa, com menos convívio”, tal como a situação implica.

Mas, “sente-se muito a falta da alegria do verão, com os tradicionais convívios e as festas populares, que este ano estão todas suspensas. O ambiente em Carapito e no concelho está bem mais triste”, deixou o reparo, desejando que “tudo isto passe e que para o ano possamos festejar”.

Outra das coisas que notou Maria foi o receio e o cuidado das pessoas locais para evitar o contágio da Covid-19, nomeadamente no cumprimento do uso da máscara, ao invés do que se vive na região suíça onde habita, em que o uso da máscara não é obrigatório sequer nos espaços fechados.

“Há até uma certa sensação de desconfiança relativamente à nossa presença”, conta. “As pessoas não se aproximam muito de nós, até dizem: ‘deixa-te estar aí, não queremos que venhas cá trazer o vírus’. Esperamos que não haja nenhum caso de infeção, senão metem a culpa nos emigrantes”, disse Maria Santos.

Também do país helvético, porém do cantão de Berna, vieram Vítor e Anabela Lopes com os seus dois filhos, para passar 15 dias em Dornelas, local onde têm habitação.

“As férias terminam já nesta primeira semana de agosto e, este ano, foram muito diferentes: sem grandes convívios e as festas das nossas aldeias, o distanciamento social e um certo receio entre a população”. Situação “estranha” e nunca antes sentida, apontou Vítor.

“Não há aquele à vontade de andar na rua, depois passas por muito gente que nem te conhece por causa da máscara, e está tudo muito parado. Para as crianças também não foi fácil, não havia nada para passarem o tempo e se divertirem”, assinalou.

O homem de 43 anos não sentiu que as pessoas tivessem receio de “quem vem de fora” e elogiou o comportamento da população residente no concelho. “Aqui as pessoas têm mais cuidado do que na Suíça, mantêm a distância física, enquanto que lá não, ‘anda tudo ao monte e fé em Deus’, como se costuma dizer”.

“Na zona de Berna, por enquanto, o uso de máscara não era obrigatório. Recentemente já colocaram a obrigatoriedade nos transportes públicos, mas na rua, restaurantes e noutros espaços fechados ainda não é obrigatório”, disse.

“Aqui sentimo-nos mais seguros”, acrescentou Anabela, contando também a experiência da sua cunhada, que é holandesa e passou 16 dias no concelho, que “não sentiu medo nenhum, antes pelo contrário, sentiu-se mais segura do que na Holanda”.

Algo que é possível reparar ainda é a presença no território de menos emigrantes. “Devido à situação pandémica, muitos optam por não vir. Tenho o exemplo dos meus irmãos que não vieram por causa dos filhos, bebés ainda, pois as crianças tocam em tudo e eles tiveram receio disso”, contou Vítor.

Tal como em anos anteriores, o regresso dos aguiarenses emigrados na Suíça começou a notar-se ainda durante o mês de julho, embora claramente menos do que o costume. Já a chegada dos “franceses” intensificou-se com o início de agosto. Mas, também, nada como noutros anos.

“Este ano tenho visto poucas matrículas francesas”, diz Adelino Antunes. Natural do Eirado, vive na região de Bourges, em França, e esteve reticente em vir de férias. Acabou por vir sozinho, “a esposa e as filhas não se sentiram à vontade para vir”. “Esta situação acontece com mais famílias, porque este ano estamos todos a passar uma situação complicada”, afirmou.

“Na altura do confinamento estivemos muito condicionados, e ainda hoje estamos um pouco, mas temos que continuar a respeitar e a ter cuidados, connosco e com os outros, sejam jovens ou não, porque há muitos jovens a comportarem-se como se esta doença não os atingisse, mas atinge”, afirmou, recordando que ficou “dois meses confinado, saia o menos possível. Só podia sair um membro da família e com autorização, que era preciso baixar através da internet, com a indicação da hora de saída e entrada, apenas para fazer o essencial – compras e medicamentos, basicamente”.

“A saudade, a família e o que a gente cá tem” foi o que pesou na hora de decidir entre vir ou ficar. E “Portugal é Portugal e a nossa terra é sempre a nossa terra”, sublinhou Adelino, que considera que “o povo aqui tem mais atenção com o uso da máscara, adaptou-se melhor e respeita mais”.

No entanto, este ano “não há aquele à vontade entre a população, não há aquele calor humano. Para além de estarmos numa zona com pouco movimento, a ausência de festas torna isto ainda mais morto. Mas, é um sacrifício a fazer para que o amanhã seja melhor”, declarou o homem de 58 anos, estando, contudo, bastante preocupado relativamente ao futuro, nomeadamente à situação de crise económica que já se começa a sentir por todo o mundo decorrente desta pandemia.

A situação pandémica está, na opinião de Adriano Santos, mesmo “cada vez mais complicada”. “Estive praticamente dois meses confinado e, ainda agora, o trabalho continua a ser mínimo, pelo menos para mim que trabalho numa empresa de equipamentos para ginásios, e a maioria destes espaços estão ainda encerrados ou condicionados”.

Adriano e a esposa Fernanda, de 57 e 56 anos, respetivamente, residem em Paris e costumam vir todos os anos nesta altura cinco semanas de férias para Valverde, localidade de onde são naturais e têm habitação, mas desta vez “só viemos quatro semanas e estivemos até à última da hora, não sabíamos se havíamos de vir ou não”.

“A alegria não é a mesma, não podemos fazer grandes convívios com a família e amigos, não há festas. O à vontade também não é o mesmo, não há afetos como de costume, beijos, abraços… há distanciamento. Nada é igual, é muito triste”, descreve Fernanda, que se emociona ao contar o caso grave de coronavírus por que passou um familiar ainda jovem, que acabou por recuperar bem.

Pelos mesmos problemas de confinamento, por idênticos receios quanto ao risco de circulação e de não poderem fazer férias na terra natal passaram António e Fábia Gouveia, a residir na região de Versalhes, que arriscaram e vieram gozar o merecido descanso com as suas duas filhas junto da restante família.

“Passamos o ano inteiro a pensar neste momento, na nossa casa e nos amigos que temos cá, e até para as crianças foi bastante duro inicialmente mentalizá-los que não vínhamos. Felizmente pudemos vir, mas sabemos que estas férias serão bastante diferentes das habituais, com menos saídas para locais com muita gente e sem grandes convívios. Vamos aproveitar para dedicar mais tempo à família. Não temos tanto contacto físico, mas é sempre bom ver a família e ver que se encontra bem de saúde”, referiu António Gouveia, de 35 anos.

O jovem casal, que tem casa em Aguiar da Beira, fica contente por poder regressar e por ver que o concelho está a conseguir controlar a pandemia, destacando o exemplar comportamento dos residentes. “Do que observamos, as pessoas estão sensibilizadas e cumprem as regras, nomeadamente o distanciamento físico, o uso da máscara dentro dos estabelecimentos e a higienização das mãos. Em França não é bem assim”.

Apesar dos condicionamentos provocados pela pandemia da Covid-19, e de aparentemente menos do que habitual, a diáspora aguiarense não deixou de regressar ao concelho para gozar férias, mesmo que estas tenham de ser mais recatadas.

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