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OUTRAS PANDEMIAS

José Júlio Campos | Professor

Enquanto lá por fora continuam os episódios tragicómicos protagonizados por Trump e Bolsonaro, por cá, a pandemia do novo coronavírus fez emergir a ameaça de um velho vírus chamado fascismo, talvez tão perigoso como o corona porque ataca o cérebro em vez dos pulmões.

Trump, a nível interno, com a obsessão de mostrar aos compatriotas que tem solução para tudo, veste a farda de Superman e sugere combater o coronavírus atacando-o com raios ultravioletas, ou outros ainda mais potentes, e com injeções de desinfetante para lavar os pulmões. A nível externo, veste-se de cowboy e ataca tudo e todos: num dia faz pontaria sobre os chineses porque criaram o vírus e o mandaram para a América; noutro, ameaça arrasar os iranianos se estes teimarem em andar pelo Golfo Pérsico, com as suas lanchas militares, como se aquele mar, tão longínquo dos EUA, tivesse sido concedido aos americanos, por direito divino; a seguir, dispara sobre a Organização Mundial de Saúde, acusando-a de ser responsável pela dimensão assustadora da pandemia no seu próprio país e retira-lhe o apoio financeiro dos EUA. Enfim, um chorrilho de propostas e reações absolutamente irresponsáveis e incoerentes, ao nível do desenho animado, próprias de quem parou na idade mental de 8 anos.

Bolsonaro, enquanto incentiva milhares de brasileiros a caminhar alegremente para a sepultura, declara cinicamente que não é coveiro e portanto não tem que estar preocupado nem com quantas pessoas morrem, nem com a forma como são enterradas, muitas delas em valas comuns. Entretanto, em pose desportiva, mas com tiques de caudilho, aplaude as sugestões de promover um golpe militar sobre o Congresso Nacional e de fechar o Supremo Tribunal Federal, gritadas por uma turba entusiástica, manipulada pelos seus homens de mão. Afasta do Governo os ministros que ousam pensar pela própria cabeça e não olha a meios para controlar o poder judicial de modo a que os filhos possam levar a cabo as tropelias mais escabrosas, que vão desde a criação de sites de notícias falsas, até à liderança de autênticas quadrilhas que têm como finalidade “silenciar” os adversários políticos do pai, como a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco. Também o Brasil se está a transformar numa tétrica história de quadradinhos, em que os protagonistas são estes autênticos irmãos Dalton, mas os reais, não os dos bonecos.

Por cá, a comemoração do 25 de abril, em tempos de confinamento, provocou um surto de fascismo endémico que, qual sarampo, irrompe ciclicamente no nosso país. Desta vez, uns quantos herdeiros ideológicos do salazarismo mais bafiento, sob o pretexto de um por eles suposto e inventado forrobodó que iria acontecer na Assembleia da República no dia 25 de abril, destilaram o seu ódio contra a data da instauração de uma forma de regime que eles abominam – a democracia. Hipocritamente, escudaram-se no argumento de que até insuspeitos democratas estavam contra a comemoração da efeméride na Casa da Democracia, o que, sendo um facto, apenas revela a ingenuidade desses democratas. E a ingenuidade não é, seguramente, a melhor forma de lidar com a hipocrisia.

Os rastilhos deste surto foram os deputados do CDS/PP, Telmo Correia e João Almeida, o seu atual líder, Francisco dos Santos, e o deputado do Chega, André Ventura. Não deixa de ser curioso ver esta santa aliança anti celebração da democracia a acotovelar-se para ocupar o mesmo espaço político na extrema-direita. Se é este o caminho que o CDS/PP pretende continuar a trilhar e se a sua estratégia passa por disputar o espaço ideológico em que chafurda o populista Ventura, então estamos a assistir ao funeral do CDS de Amaro da Costa, Lucas Pires e Freitas do Amaral que, a bem dizer, já está morto há muito tempo. E é um funeral com poucas carpideiras, como convém em tempos de pandemia.

A indigência dos argumentos invocados contra a comemoração do 25 de abril na AR ficou bem patente na facilidade com que o Presidente da República e os deputados os desmontaram em plena cerimónia. Os infetados morderam a língua, o surto foi contido, a agenda mediática voltou a focar-se exclusivamente na pandemia, triste por lhe terem tirado o brinquedo. No entanto, desenganem-se os ingénuos – a vacina inoculada na Assembleia da República não erradicou o vírus. Ele continua latente, muito forte em certos setores da sociedade portuguesa e com um terreno muito fértil para a sua proliferação – as redes sociais com o seu extraordinário desfile de ignorância, intolerância, inveja, egoísmo, ganância e outros valores deste quilate que por lá abundam. Aliás, é precisamente por causa da ameaça real desse vírus, que as redes sociais potenciam e alguns oportunistas da política aproveitam para cavalgar, que hoje, mais do que nunca, apesar das restrições impostas pelas circunstâncias, importa, urge, impõe-se, comemorar, celebrar, gritar bem alto o 25 de abril e aquilo que ele, essencialmente, trouxe e representa – Liberdade e Democracia.

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